Escrevo até raspar as mãos. A minha letra confunde-se com o nevoeiro e o tilintar dos dedos. Estou convicto numa sala vazia. Escrever tornou-se uma periodicidade ciclotímica. Enquanto pasmo com a existência, o cheiro a luz basta-me para sarar as feridas. E no quarto inconcebível reparto o tempo em conceitos e recordações amorfas. Vou repassando a vida como um boneco. Diante do conforto, perco os vícios, perante os livros, deixo acumular algum pó - assim tudo isto adquire um fantasioso mofo. E o tinto embebe o silêncio.
Abro o meu sono a um romance sem nome. Aceno à alba, deixo as barbas da noite ruírem e fecho o cérebro à realidade múltipla do mundo. Opto por não me introduzir. Creio que o silêncio cumpre e o olhar basta - o texto abre a espora às flores. Rejeito religiões, sou ténue demais para adorar muros, trémulo e inexistente para me confessar. Odeio justificar-me. No entanto, como o ciclo da vida, vicio-me em suplementos e a minha confissão é um sonho entre mãos. Estou psicótico. E as árvores cerram-me o sangue.
Cismo pela porta do nenhures.
Cismo pela porta do nenhures.
Carlos Vinagre
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