Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

VIII



Colo a face ao vidro. O carro prolonga-se pela estrada. Caminhamos juntos pelo asfalto - uma aproximação à indiferença paira. As pétalas flutuam pelo mar - os caminhos - os espelhos de Deus.
Enuncia-se o maremoto dos espinhos. 
As roupas, espalhadas pelo inabitável, colmatam a lacuna - a escultura despe o sintoma: o semblante dos trovões apunhala o toque dos dedos. Bocejo.
Flamejante a terra veste o soutien: o aroma na areia molhada.
Um raio de sol embate-me. Que calor imenso num grão de fogo. Um pintassilgo aguarda a semente do dente-de-leão: o eucalipto refresca o pulmão pela aberta janela.
Aguardo o bebedouro.
Pela ténue neblina - aguardo a fonte.
E o mar esbraceja pela minha dor.


Carlos Vinagre

VII



Aguardo-te. O anexo banha o relógio.
No indizível corre a chuva do fim - o percurso milenar e inexplicável das coisas.
Um sangue brota. A fantasia é devorada com colheres e sopa.

No bosque o duende rouba alimentos - as pedras transformam-se em corvos.
- fecha o princípio nas mãos.

Perante o o arco-íris - e o penhasco do sol
deixa-me afogar num lago de coral
E as feras escondem os frutos na caverna inarrável
- o cogumelo ácido

o meu pai foge - os pés da cordilheira


Carlos Vinagre

VI



As propriedades do princípio: o poente.
Dentro as qualidades desaparecem, a matéria adquire uma savana de notícias.
E as mães seguram ímpias as nádegas das vísceras:
as nuvens absorvem a superfície.

No fim: o design -
as lanternas hemoplanetárias e o triste borbulhar do rio.

Ante a eventualidade, o despejo, a terra..
O caldeirão vaporiza o tempo...
E o ventre suporta a libélula


Carlos Vinagre

V



A univocidade do êxtase e do incomunicável transfere o batimento para a urdidura cerebral. A génese urbanística do animal rasteja pelo campo desfiado de rocío. O ante-jorro espreita pela inflexão. O útero com a pontuação menstrual saliva a fogueira. Embrionária a densidade cospe a amnésia e a lacuna ignifica o eufemismo - a gramática da eutanásia. 
O arbúsculo inibe.
Pela emigração do orvalho, a mãe estende a intensidade deutérica do pigmento - uma fobia esmaga-se pelo septicídio da instalação e a tessitura da voz insolve o electroscópio da veia -o prepúcio esperma a radiação. O percurso torna-se então uma inconfidência e o episcópio neuronal uma ambiversão do púbis.
A textura atraca. E o porto desaparece.
Eis o dialecto do abdómen.


Carlos Vinagre

IV


É o termo
O vocabulário do desastre
O assassinato da voz no funcionário
Um país sem existência
Silenciado pelo sol
A anestesia das mães

( Nas rosas florescem coisas assassinadas
E as casas abrem as goelas ao demónio)

Estas são as cinzas
Os portais da doença: a sinopse.
as mãos da alba
No turbilhão dos miúdos

Estes são os gritos
E os gomos de luz interceptam fronteiras
perante o impenetrável casco das mentiras:

as casas sem existência
os frutos roseirais 
o mel da existência
o termo do sol


Carlos Vinagre

III




É incógnito - dir-me-às. Avesso às promessas. Preso por contratos. Adianto-me - não sei a quê. Urjo água. Adoenta-me as plaquetas - as linhas.  Que lugar é este? Grita a voz inadjectivável - a gravura.
Agrafa-te pela alba. Corre pelos lábios da terra. Um dia esconder-se-á o cancro.
O horror ao eterno. Ao efectivo. À fome. Vomito-te ninguém.
Ontem observei os ninhos. Os pássaros comeram as cegonhas. As larvas trazem as colheitas.
Queimei os textos. O caldeirão e os seios: o sexo é semântica. Despe a face e expele o sopro medi-único. Observa a palidez do opaco.
Transita-me pelo teu amor.
Hei-de acontecer. Não tarda.


Carlos Vinagre

II



Por momentos desejaria sair da minha cabeça. Observá-la num quarto frio ligeiramente aquecido - a lareira a rubescer o coração na neve - durante uma noite nebulosa, envolta de um cinto de vento, poucas casas e ao longe as embaciadas luzes da cidade. Usufruir da minha própria realidade, manter-me dentro do ante-corpo e sarar a existência com a fantasia indescritível do ante-mundo  - o possessivo não adjectiva a tradução.
Estou hoje sem motivos para oferecer-me. O negro das coisas faz sangrar a minha pele - exausta a retina abandona o rio e as nuvens preenchem o quarto feito de ramos verdes e teias de raios solares - a clareira do submundo fecha-se na cascata abandonada da ante-montanha.
Esqueço-me de consumir os anti-depressivos. 
Hoje já não me assusta o suicídio - é um ritual como comer maçãs e frutos silvestres. Bastam os arbustos no labirinto, imaginar o palácio escondido e acreditar, contra a minha vontade, em princesas, com os seus longos vestidos, os cabelos ornados, águas perfumadas e tinturas irreais.
Absorto deixo que o caudal amniótico lavre. Sinto-me entranhado numa oceânica estranheza.
Regresso. Encontro a casa desarrumada. Julgava-me sozinho. Umas baratas percorrem a rua, os morcegos roem insectos. E as pessoas, alheadas, agitam-se pelos passeios, julgando-se úteis e produtivas:
Neste país o silêncio é uma virtude e a falta de individualidade uma clínica.
Entretanto caminho distraidamente. Caminho pela espuma do mar. Reparo na minha cabeça.
Corto a garganta. E tomo os comprimidos num corpo cheio de textos.
Sofro indefinidamente: aos círculos.
E a angústia persegue-me desesperadamente.


Carlos Vinagre

Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

Estrada de Palha – Um Filme de Rodrigo Areias

28 Janeiro 2012 || 22h00

Cine-Concerto por The Legendary Tigerman e Rita Redshoes




Esta é a história de um homem que após ter vivido longe do seu país durante mais de uma década, volta à sua aldeia para vingar a morte do irmão. Inspirado nos escritos de Henry David Thoreau, traduz Desobediência Civil para Português. Num país onde a corrupção e a extorsão são encaradas com normalidade, aqueles que materializam a representação do Estado prendem e matam impunemente. Alberto tenta combater a tirania do estado e salvar o que resta da sua família. Mas este é um país onde nada muda…
Exibição do filme realizado por Rodrigo Areias com interpretação ao vivo da banda sonora original por The Legendary Tigerman e Rita Redshoes. No final, conversa aberta ao público com presença do realizador e compositores.
The Legendary Tigerman dobro, guitarra eléctrica, foot stomp, violin-uke
Rita Redshoes guitalele, violin-harp, marxophone, glockenspiel, teclado, voz .
Contamos consigo, em mais uma iniciativa conjunta, do Centro Multimeios de Espinho e da Associação Cultural Extrapolar.

Bilhetes: 10€

Reservas: 227331190 / reservas@multimeios.pt

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

I




Escrevo até raspar as mãos. A minha letra confunde-se com o nevoeiro e o tilintar dos dedos. Estou convicto numa sala vazia. Escrever tornou-se uma periodicidade ciclotímica. Enquanto pasmo com a existência, o cheiro a luz basta-me para sarar as feridas. E no quarto inconcebível reparto o tempo em conceitos e recordações amorfas. Vou repassando a vida como um boneco. Diante do conforto, perco os vícios, perante os livros, deixo acumular algum pó - assim tudo isto adquire um fantasioso mofo. E o tinto embebe o silêncio.
Abro o meu sono a um romance sem nome. Aceno à alba, deixo as barbas da noite ruírem e fecho o cérebro à realidade múltipla do mundo. Opto por não me introduzir. Creio que o silêncio cumpre e o olhar basta - o texto abre a espora às flores.  Rejeito religiões, sou ténue demais para adorar muros, trémulo e inexistente para me confessar. Odeio justificar-me. No entanto, como o ciclo da vida, vicio-me em suplementos e a minha confissão é um sonho entre mãos. Estou psicótico. E as árvores cerram-me o sangue. 
Cismo pela porta do nenhures.


Carlos Vinagre

a cidade placentária



na cidade placentária traduz-se a melancolia
pelos segredos das folhas: o roubo da nossa existência
a solidão fecha a água -

nas traseiras da casa há uma cascata a roer a voz
as mães agarram as rosas pela ansiedade
e o silêncio assina a carne

- a luz embate na rua

há uma pétala a gritar nos ramos das árvores
e uma borboleta espuma a neve umbilical
sobre o caudal da fantasia

- o coração fenda -
 
quero-te abrir na escama do peixe
útero das trevas
e pelo teu leite:

os cães comem crianças


Carlos Vinagre

As amêndoas do teu corpo


Deixo correr a água pelas amêndoas. O sinal irrompe na tempestade das pedras: o amor escorrega pelos olhos como se a boca fosse o sol.  Há uma história que não se conta: o alfabeto - o alfabeto da chuva, a areia do sangue, a semântica das emoções. Quero estrangular-me. E na lagoa do meu corpo, despertar-te pela língua incontável dos dias - o pó cai pelas marés da verdade.


 Carlos Vinagre

Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

As linhas não existem

 

  

Apresentação do livro As linhas não existem de Joana Espain

 

Dolché Bar, 19 de Novembro de 2011, 17h30: rua 2, número 1333, Espinho 

                       
                    Org.: Associação Cultural Extrapolar


Sobre a autora:
Joana Espain nasceu no Porto em 1977. É doutorada em Física pela Faculdade de Ciências e lecciona na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Frequenta actualmente o mestrado em Estudos Literários, Culturais e Interartes da Faculdade de Letras da mesma universidade.
As linhas não existem é o seu primeiro livro de poesia.


 



Citando Ana Luísa Amaral a propósito deste livro:



"Em Joana Espain (...) as palavras rangem e são arestas, e fazem-se brilhar, acendem-se. Avessas ao estilo. Sabendo, com Dickinson, que o estilo de pouco, ou nada, vale, porque não se ensina nem se aprende em manuais. Assim, o dickinsoniano recusar saber “dançar na ponta dos pés” recria-se e re-vive na desarmante afirmação “uma baleia não tem estilo”. Por isso, as linhas (dos estilos, dos pensamentos enquilosados, mas também dos modismos) resumem-se a isto: “o nó de uma linha individual lançada precariamente ao mar para suster o sublime estrondo da baleia”.
Há nestes poemas uma frescura que coloca seguramente a voz que os fala entre as vozes interessantes da poesia nossa agora emergente.
Nesta busca e neste rodear do mundo sensível e concreto através do recurso a uma linguagem suspensa e contida, é possível detectar nesta nova voz a importância do cruzamento radicalmente inusitado de linguagens de fundações várias (a da ciência, a da poesia, a do quotidiano)." 



Terça-feira, 15 de Novembro de 2011

Filo-Café sobre a Obra de Manuel Laranjeira


4 Fevereiro 2012 – Filo-Café sobre a Obra de Manuel Laranjeira


Para este filo-café enviaremos, sempre que solicitado, a obra completa digitalizada de Manuel Laranjeira (gratuitamente). Neste filo-café, todas as intervenções e colaborações (desde a fotografia ao texto) estarão sujeitas ao tema, não se aceitando obras que não respeitem tal item. A liberdade de criação permanece mas deverá incidir sobre algum dos aspectos da obra de Laranjeira.
Cada contribuição enviada deverá conter (seja no título, seja na descrição, seja no conteúdo) o excerto (ou ideia ou conjunto de ideias, ou simplesmente um fragmento ou uma citação) a partir do qual foi despoletada a criação.

Áreas de contribuição: pensamento, neurociência, fotografia, texto, pintura, filosofia portuguesa, audiovisual, escultura, sociologia, performance, música.

As contribuições serão publicadas todas (excepto as que não respeitem o tema) no blogue: http://principicios.blogspot.com/, sem prejuízo das intervenções pessoais de viva voz durante a realização do filo-café.

As inscrições – gratuitas – estão abertas.

Para alguém se inscrever deve enviar um e-mail para:

indicando nome e área de contribuição.

Página do Facebook do Manuel Laranjeira: 
https://www.facebook.com/pages/Manuel-Laranjeira/263639450336194?ref=ts

Ânimo: Extrapolar e Incomunidade.

Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011

Afectos” – Ciclo de Curtas Metragens arranca a 4 de Nov. no Centro Multimeios de Espinho



AFECTOS – Ciclo de Curtas Metragens – Centro Multimeios de Espinho e Extrapolar – Associação Cultural.

Sexta-Feira, 4 de Novembro :: 22h00

Centro Multimeios de Espinho

Três filmes com diferentes sensibilidades que “falam” dos afectos.
Obras de jovens realizadores: Entretanto, de Miguel Gomes; Alpha, de Miguel Fonseca e Corrente de Rodrigo Areias.

Esta sessão conta com a presença da responsável pela Agência de Curta Metragem Salette Ramalho.

Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

O novo acordo greco-b(r)oxeliano



A possível participação do povo grego numa consulta referendária ao acordo com Bruxelas já está a suscitar  críticas e a reacção totalitária dos mercados. Conforme notícia avançada pelo Público múltiplas "manifestações ocuparam as ruas em várias cidades gregas na última sexta-feira, durante as celebrações do feriado nacional, contra as medidas de austeridade do governo socialista e as consequências do acordo europeu. Este dá aos credores controlo sobre a política orçamental do país, lançando receio em alguns de uma perda total de soberania." Adianta o mesmo artigo que uma "sondagem que se realizou no fim-de-semana mostra que a maioria dos gregos consideram as decisões da cimeira negativas, enquanto apenas 12,6% pensam o contrário. Este inquérito, realizado pelo instituto Kapa Research para o jornal To Vima, foi realizado junto de 1.009 pessoas." Embora possamos ler facto decisório de várias maneiras , a verdade é que os mercados  já reagiram:

"Ao final da manhã de hoje os mercados de acções acentuaram as suas perdas da abertura e afundavam-se mais de 4% em Paris e Frankfurt, ao passo que Milão caía 5%, Madrid cedia 3,78% e Londres 2,54%", segundo adianta o Jornal Público. "O que é que vai acontecer se o povo disser ‘não’? O risco é o de a comunidade internacional cortar as entregas de dinheiro e o país acabar por sair do euro”, comentou por seu lado Christoph Weil, analista do Commerzbank." Ou seja, Georges Papandréou e o resto do executivo teve finalmente a coragem de chamar o povo para decidir sobre o seu futuro, dado que estas medidas restritivas, a má gestão da crise grega feita pelos líderes europeus, as medidas claramente recessivas implantadas no país, impuseram um penoso sofrimento ao povo grego. Por isso, e dado que a democracia é supostamente o modelo dominante na Europa, é mais do que justo que o povo se pronuncie. Um Governo não tem legitimidade para assinar um acordo de redução de soberania, pelo menos na dimensão a que estamos a assistir, por isso, para validar o futuro acto, dever-se-á  consultar a maioria da população,  a população que diariamente sofre as más opções politicas do Directório que domina a União Europeia.

Quem está familiarizado com a pequena história da construção europeia sabe que a nossa união tem sido feita de cima para baixo, sendo os parlamentos nacionais utilizados para aprovar tratados, sempre que é imperioso fugir à consulta popular. Significa isto que os líderes sabem que estão a cometer erros, que há descontentamento, talvez por servirem os interesses de uma elite financeira. Portanto, evitam sistematicamente o confronto com as pessoas. A prova do que digo é que grande parte desta crise deve-se a erros no processo de construção da União Europeia, nomeadamente os artigos que proíbem que a União absorva a dívida dos seus Estados e a proibição do Banco Central Europeu de emprestar directamente aos Estados dinheiro. A cegueira estreitamente liberal e monetarista chegou ao ponto de negar, em condições excepcionais, o acesso a financiamento directo do BCE pelos Estados em dificuldades, tudo em nome da suposta estabilidade dos preços, do controlo do Estado e das distorções de mercado que podem advir de tamanho facilitismo imposto à entidade mais legítima de uma comunidade. Ao inverso deu-se todo o crédito aos bancos. Assim estes últimos recebem dinheiro do BCE a juros baixíssimos para emprestarem depois aos Estados a juros mais elevados. Ou seja, isto é a exploração legal de todos os contribuintes.

Aos mercados que hoje respondem negativamente à democracia diga-se que eles foram responsáveis pela maior crise dos últimos tempos, a sua corrupção, a falta de efectivo controlo, a ganância dos investidores e a falta de dimensão ética nas suas opções - qualificados como agentes supostamente racionais  - é que geraram esta crise. Ou toda a gente já se esqueceu dos graves casos de corrupção em Wall Street ? E da fuga aos impostos e da fuga de capitais ? E das empresas offshore ? Onde estão as promessas de acabamento dos paraísos fiscais que tanto se falou ? Os mercados não são de confiança. Como cidadão não reconheço uma superioridade moral aos mercados. Por estes motivos, precisamos de uma outra Europa, de um outro mundo, mais regulado, mais justo, com um novo equilíbrio entre Estado e mercado.


Carlos Pinto Vinagre

Haloadas



Para alguns este dia é um dia de ilustração de roupas e de campas, de olhares e conversas sobre o alheio, observações e participações, orgias de niilismo e uma ausência abismal de reflexão. A auto-alienação, o contraste entre o materialismo exibitório e comercial e o culto do incorpóreo - uma espiritualidade íntima, pesada, viscosa e solidária com os cadáveres - uma forma de necrofilia como tantas outras, neste caso com uma aceitação convencional e social - a imagem projecta-se pelo bosque do nenhures e da não existência.
Afinal o dia dos mortos é quando a consciência o disser, quando a lembrança o ejacular, não depende de exterioridades institucionais: a força do social não é sinónimo de verdade, é propulsora da fantasia de outrem, do poder, da superficialidade, não suscita a verdade pessoal, a espontaneidade, não tem em conta a vontade de quem já cá não está para se dizer. Iníquo? Dependerá do alcance do olhar.


Carlos Pinto Vinagre

Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011

O direito fora da constelação humana



 Noção Jurídica da Coisa


Os animais juridicamente ajuizando são coisas. Transponho este excerto:

" Num sentido corrente e amplo, coisa é tudo o que pode ser pensado, ainda que não tenha existência real e presente. Num sentido físico, coisa é tudo o que tem existência corpórea, “quod tangi potest”, ou pelo menos, é susceptível de ser captado pelos sentidos.
Quanto ao sentido jurídico de coisa, há que considerar o art. 202º CC, onde se contém a seguinte definição: “diz-se coisa tudo aquilo que pode ser objecto de relações jurídicas.”
Podemos definir as coisas em sentido jurídico como os bens (ou entes) de carácter estático, desprovidos de personalidade e não integradores de conteúdo necessário desta, susceptíveis de constituírem objecto de relações jurídicas, ou, toda a realidade autónoma que não sendo pessoa em sentido jurídico, é dotada de utilidade e susceptibilidade de denominação pelo homem.
Os bens de carácter estático, carecidos de personalidade, só são coisas em sentido jurídico quando puderem ser objecto de relações jurídicas. Para esses efeito devem apresentar as seguintes características:
a)      Existência autónoma ou separada;
b)      Possibilidade de apropriação exclusivas por alguém;
c)      Aptidão para satisfazer interesses ou necessidades humanas.
Inversamente não é necessário:
a)      Que se trate de bens de natureza corpórea;
b)      Que se trate de bens permutáveis, isto é, com valor de troca;
c)      Que se trate de bens efectivamente apropriados."


Questões: 


1 - " Podemos definir as coisas em sentido jurídico como os bens (ou entes) de carácter estático, desprovidos de personalidade e não integradores de conteúdo necessário desta, susceptíveis de constituírem objecto de relações jurídicas, ou, toda a realidade autónoma que não sendo pessoa em sentido jurídico, é dotada de utilidade e susceptibilidade de denominação pelo homem. " - O animal é estático? Não sofre alterações? Todas as realidades corpóreas não estão sujeitas a alterações erosivas? Como podemos encaixar uma realidade dinâmica como um animal na categoria de coisas só porque, pensamos nós, nos apropriamos do animal e ele realiza uma função afectiva ou é susceptível de ser manipulado e a sua energia ser aplicada noutras utilidades? Não somos nós animais?

2- Verdade é que o animal, não sendo susceptível de direitos e deveres, por não dominar a nossa linguagem verbal; por não ser capaz de apreender as nossas mensagens; por não ter as nossas qualidades; verdade é que partilha de parte das nossas características: tem alma porque tem ânimo; tem uma linguagem própria e comunica; em suma é um organismo dotado de sistema nervoso e de sensações, de dor, de prazer. O facto de não entendermos o cosmos de cada ser, não nos dá o direito de os equiparar a coisas. Juridicamente deveria ser criada uma figura intermédia entre o animal e o ser humano, de forma a integrar todos os seres animais nessa categoria que preenchessem certos requisitos.

3 - "Os bens de carácter estático, carecidos de personalidade, só são coisas em sentido jurídico quando puderem ser objecto de relações jurídicas. " Na verdade nada nos prova que os animais não possuem uma personalidade? Sabe-se que a palavra personalidade deriva de persona -  nome das máscaras usadas por actores no teatro antigo. Como sabemos o Direito é antropocêntrico, existe para o ser humano, para ele e criado por ele. Não admite pois uma extensão para além do humano.  E há sentido nisso, pois ele plasma-se pela nossa linguagem, é produto das nossas fantasias, das nossas criações, das nossas narrativas. Porém, sendo o ser humano um animal compreensivo, ou tendencialmente compreensivo, não pode o Direito alargar-se a outra compreensão e  estender o seu restrito universo?

4 - Fala-se em criação de responsabilidade para a pessoa humana, de deveres para com os animais. Pode-se argumentar que a relação é entre pessoas: uma fonte de direito concede a uma pessoa uma responsabilidade perante uma coisa. Mas essa responsabilidade, esse dever, não faz emergir um direito? Qual o problema de um animal possuir direitos, mesmo sendo incapaz de entender a nossa linguagem? A arquitectura jurídica não deveria aproximar-se da realidade dinâmica do mundo? Parece-me estático e profundamente retrógrado uma entidade viva e animal ser equiparada a uma coisa. A evolução do ser humano deve-se à expansão da sua capacidade em reconhecer a diferença, não estaria na altura do Direito reconhecer a diferença através da emersão de uma nova categoria jurídica?

5 - Hoje num debate televisivo assisti a um diagnóstico: os defensores do fim das touradas são ideológicos, escondem uma filosofia. Coloco a questão: os defensores das tradições não são ideológicos? A tradição, sendo uma prática com consciência de obrigatoriedade em quem a pratica, não é também profundamente ideológica? Não devem ser removidas as más tradições, as que infligem o sofrimento? A consciência, que distingue o ser humano, permite que uma "coisa" seja objecto de uma relação desumana onde um animal - animal humano - arrisca a vida para impor sofrimento consciente a um animal que é manipulado para uma arena pela força simbólica da bravura? No século XIX ainda se compreendia a manutenção da prática, actualmente não.


Deixo à consideração este conjunto de questões. 


Carlos Pinto Vinagre

as bonecas hospitalícias



O limbo incolor expande-se pela tríada da fome. Os lençóis de água picam como o bico do mundo. A realidade informe excripta as trevas pelos pulmões contraídos pela depressão do ar. Há uma montra a cair pelos cisnes do lobo. No leite que jorra pelas marés da placenta, um encantamento brota pelo sentido disperso dos cornos. A língua é a farínge do coração e pela pesca do sonho um polídromo ressente-se pelas entrelinhas do esperma. Há uma fome a percorrer os nervos como a ansiedade, há uma intimidade que se desfigura no aspecto dos transeuntes, na lama das suas pegadas, no fosco olhar da sua conversa. E a cegueira dos seres afunda o desejo no bico dos pássaros.
As lanças da roupa transparente, o sexo inseguro, o corpo da vida, o aspecto aquoso da imperfeição cerebral: a medonha cinética das igrejas a cair aos terramotos pelas asas da voz.
Insisto na máquina humana. Desejo-a depô-la, deitá-la ao lixo, procurar o limbo incolor na fome do corpo, deitá-la fora e abrir as minhas costelas à procura de um outro coração, um coração que respire, com um suor mais vaporoso e uma forma aberta à imprecisão de tudo. Habitar o que não é habitável e deixar a lareira expandir-se, queimar a casa, arder todos os meus livros, todas as minhas recordações, todas as minhas cadeias, num exercício anti-poder que me liberte para o que não existe.
O impossível na traqueia, a voz da fome: o hospital indefinível recorta as bonecas da nossa alma, como a morte ao abrir dos corpos numa autópsia menstrual: as goelas relampejam a lâmpada da faca - O assassino desliga-se no marmoto das chamas e as ondas dilatam-se pelo ininteligível.


Carlos Pinto Vinagre

esquizofagia da boca


Depois do que já não existe
resta-nos não esperar pelo que morre na luz do incurável
não dormir na cave infiltrada dos brinquedos
e abrir os olhos no silêncio intransponível
 da nossa traição

 -ouço o rasto de qualquer coisa na súbita maré dos meus pensamentos
sem movimento ausento-me do território caótico das emoções
e descubro o vespertino ventre dos sentimentos -

na semântica do acontecimento
o texto da vida transporta o rio ilusório do eterno
e o colapso visceral do momentâneo
o desaparecer da chuva pelas traseiras da vida
é o errado orvalho da voz pelas tabernas

conseguir a transfusão da boca
obter uma janela pela extensão das sinapses
e encontrar o código da linguagem cósmica

talvez isto não seja mais do que o aparato lógico dos outros
uma arritmia alojada pela porta do cutâneo
uma desconfiança de tudo quanto existe
e uma corda a enrolar-se na espuma exacta dos dias

o desenrolar pelas caveiras
a ressonância magnética do espaço inabitável
a disfasia embaciada pelo espelho da ubiquidade
e o leito da esquizofagia da boca

colapsa-se a carne no horizonte


Carlos Pinto Vinagre

Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

o ventre inexistente


o ruído das coisas quando chocam com os poros
no imenso suor que isola os arbustos
este fechar da casa no bosque
é o fechar do ventre sobre as trevas

é como o descer da tarde pelo poros
há uns arbustos a cobrir o mundo
e o ventre da casa fecha-se sobre o sangue

como o cair do sangue sobre a terra
e a cascata de alguma coisa sobre os poros
assim inundo-me na misteriosa força das pedras
e caso-me labiríntico com o ventre do inexistente

Carlos Pinto Vinagre

cair dos corpos sobre o mundo



a aparência é quando deixamos de existir
num fosco ciúme do mundo
as nádegas do mar são as nossas quiméricas mãos do divino
na indefinição escolástica da vida:
a justiça é a hospitalar repartição entre homens

tenho muita desconfiança de mim
que horror esperar por um quadro dos meus olhos
a radiação queima e a fotografia tão somente raspa a epiderme da alma
num transporte de sons mudos pelos alvéolos do sono

o esquecimento do nosso sorriso:
abro frequentemente a minha janela
espero alguma confusão, um sótão com uma cave escondida pelo sofá
teias de aranha, um timbre de bolor e a chuva a bater pelo arvoredo
pelo quintal da infância, um corpo descolorado e desconforme com o bater
ríspido da luz e do coração
só encontro a desilusão, a confusão de ver o frio a trepar pelas eras
e o fim da estrada estreitada pela caveira de água
e a criança ao constatar a insolvência de si
a trancar a porta com o ar dos pulmões
e a circonavegar  os olhos

esta é a língua a enrolar-se na boca - na saliva da tristeza -
e a melancolia do cair dos pêssegos
nas cerejas virgens a escapar como doentes
no cair do corpos sobre o mundo


Carlos Pinto Vinagre

gritar na linha da garganta


todas as palavras podem ser a violência de uma queda
pelo campo de fósforo

ouço-te vento nos braços da necessidade de todas as coisas que não existem

todas as palavras podem ser um acrescento ao sol pela boca de vénus
nas gretas da lembrança - a irresistível posse da descrença

e no bailado do mar cobrir o cavalo com corpos de luz
ao abismo

coloro-me na praia com os olhos fechado sobre a chuva

as palavras são precisas como a necessidade de gritar na linha da garganta
e no ácido da bílis de descobrir o sangue dos astros

fecho-me na pele escura da tua voz


Carlos Pinto Vinagre


Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

uma caverna vasodilata no timbre dos olhos



um temor cilindra a boca
cai a chuva em imagens e um nauseabundo cheiro a rosas

a mãe abre as costas placentárias:
a vagina do real estonteia no clitóris das abelhas
e um pesadelo distorce o limbo subtilmente

há o cair da pele pela lagoa
na fibra do nenhures
o mote da existência é um rendilhado abandonado no útero
através de um trapézio anoitecido
nas sombras da vela

uma caverna vasodilata no timbre dos olhos


Carlos Pinto Vinagre

Sábado, 1 de Outubro de 2011

inanítico

Escrevo pelas nuvens. A água desaba pela centopeia. Um sorvete na boca ferve o dióspiro. Bate o que estranho. Encontro o diadema sem corpo. Estonteia o coração  na pulsão da ansiedade. O estalo abre o músculo perante a descoloração do mundo. Paira o ina-nítido.


Carlos Pinto Vinagre

Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

o passeio inexistente




O cadáver transforma-se sobre a noite num espessa película da luz. A caveira tem os olhos perdidos pela imensidão do restante. Decido delapidar as artérias até perder a cor- Morrer é descolorar. E no processo das estantes, come-se Setembro como uma maçã. 
Não quero restar. Prefiro a convulsão da noite, do desconhecido, da incompreensão. Desejaria ser escutado pelo mundo, a minha língua é traída pelo verbo...
Abisma-se a negritude das coisas. Quero abrir o tórax ao universo, despedaçá-lo,e ser escutado pelo sonho. Desejo a incomunicação.
Bate o coração no desespero. E os olhos vislumbram a melodia.
Escuto-me. E revejo novamente o leite, o nevoeiro misturado com o calor tardio, desperta a ansiedade e a velha perspectiva do mundo...
Deixem-se ser um passeio pelo inexistente...


Carlos Pinto Vinagre

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

O que não acontece é o meu nome




O que não acontece é o meu nome: sonho.
Gostava de te traduzir numa coisa intraduzível, esperar-te pelo cair da tarde nas bocas do irreconhecível e suspender-te nas mãos como um tocha sem forma. Gostava de acontecer-te de outra maneira. E o invisível que apalpa as formas às escuras, esculpisse o meu corpo como uma trepadeira torrada na atmosfera luminosa da cera - o Outono avança pela palavra.
Gostava que outros viessem. Sentissem esta desfiguração dos olhos. Por vezes é bom fechá-los num quarto, abrir o computador, olhar a janela e em seguida sentir que estamos emersos nos olhos que nunca mais acabam.
A neve é a luz das gotas.
A boca chama por ti como se a rosa fechasse o coração pelo Outono e a língua recolhesse ao que não está dito pelas vértebras do corpo.
Às vezes acontece-me o acidente do mundo, a transformação, o transporte para o invisível- o subjacente-diante da luz do que não há - as gotas descem os lábios até ao coração e as marés vivas traduzem-se numa inclinação para a tranquilidade.
Abraço novamente os olhos, reabro por acidente o intransponível.
Entretanto meti-me nos copos durante fases episódicas. E retomei o fôlego de escrever desconhecendo as coisas, ano passado organizei muita desorigem e esforcei-me por não me concluir na hipótese que tenho do mundo.
Acolhe-me o desejo de não ter e de não abrir os espelhos pelas faúlhas da realidade. Fecho os olhos, entretenho-me a imaginar-me, retiro a roupa pelas falhas e atiro-me empoeirado ao sol que se interpõe nos aromas florescentes do Estio. Estou feliz. E é bom estar vivo. E sinto-o como a hemoglobina.
Escrevo-me no texto.


Carlos Pinto Vinagre

Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011

boca exilada



Que eu não reconheça o meu nome pelas silvas campestres do sonho e sobre um espinafre de sangue consiga vislumbrar a paisagem fria com os olhos em labareda. E o corpo tornar-se-á uma boca mortífera na língua exilada do texto inexistente.


Carlos Pinto Vinagre

Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011

Poética : a Mitomania do Poeta



Debuxos Ensaísticos


"Eu não sou eu nem sou outro
sou qualquer coisa de intermédio."  Mário de Sá-Carneiro


ocorrências durante conversas incomunitárias


"O poeta não é um fingidor". Não pode ser um fingidor porque não existe: é um estatuto. E os estatutos são regras - é um conceito performado por mitos.

A influência vitoriana, a concepção do poeta assente na ideia de telenovela - o fingimento poético - através da racionalização das emoções, dos conflitos de identidade, das relações sado-masoquistas entre os desejos, as vontades, os sentimentos e as impotências, exploradas por vezes de uma forma patética e pouco profícua ( o que demonstra o profundo alicerce deste autor na corrente romântica ) , e a sedutora manipulação, através do irreal, de um desfigurado destinatário - Fernando Pessoa pensa num público, está ao serviço de algo, está em função de outros - e é por isso o rei-publicitário do drama português, escravizado pela sua incapacidade de ver o real-criado e assim o entender - o aroma respirável. Esta perspectiva, conformada por uma estreita textovidência, não compreende a realidade crua da escrita pois se esta não for aberta, liberta, nua, dita, não atingirá a meta-física pulmonar essencial para que o texto aconteça como poema e transpire para além do habitual. E é por isso que a definição pessoana - o curto-circuito do logos eterno - está profundamente enraizada no catolicismo - na sua estrutura morfa e jurídica, castradora e incapaz de captar a substância da realidade - a reinvenção - o poema como uma criatura e uma região amorfa e visceral de transmutação da ancestralidade. 

O poeta também não existe como realidade. E não existe em função da perspectiva enunciada. O que existe é um texto - o corpo-texto, o animal-texto, a atmosfera-texto, a sugestão-texto, o resultado do indizível, da traição, do  intraduzível, da experiência dos corpos sobre o turbilhão efervescente da transparência do nosso corpo-porta-aberta e veículo emissor de sinapses divergentes do pensamento tipo, do pensamento preconceituoso e televisivo, do pensamento mecanicista - o do homem habitual.  

Admita-se: o poeta é um texto, é uma voz, é uma linha, é um pensamento, é uma desconstrução, é um momento vivencial emotivo, é uma dinâmica, é uma intensidade, é um circuito aberto - por paradoxal que pareça - , é uma contradição e é também uma outra coisa - intraduzível. E Aparece. Existe. E Ex-plode.

Só o texto se abre ao manancial significante e surge como uma possibilidade honesta de imaginação, como uma excrita, como uma actualização e como uma intensificação através da tecnologia (i)lógica pelas águas do justo transporte para a dimensão do autêntico.

O poeta, ao ser estatuto, possivelmente oscilará como a moda, ao sabor dos egos, sem a proximidade necessária à verdade relativa, tornando-se uma mera indigestão da vaidade, o cadáver putrefeito dos abutres, uma praga de gafanhotos - o simbólico produto da infertilidade industrial e politiqueira

A não comunicação, como ausência do solilóquio monolítico, é o contacto com a polissemia do diverso e do divergente. A distinção, a disfunção e a disfasia adquirem uma nova articulação, uma nova libertação, uma outra vivência - é uma das características do texto que convencionalmente se designa por poema. 

Escrever surge como uma formatação desconstrutora de um conteúdo mental vivificado por uma tonalidade atmosférica emotiva que ressurge no aspecto neuróptico com ambiguidade, musculado pelo não universal, amadurecido no decurso do fluxo pelo múltiplo no ansiar do impossível, pela encosta da outritude, do cosmos e do caos.

Para ser honesto - não vou escrever em voz impessoal porque é na maior parte das vezes uma tentativa rebuscada de ocultação da própria voz - idiossincrasia tão presente na  expressão textual dos vulgares poetas  que conferem ao discurso ( atente-se discurso!) um tom ilusoriamente científico para arrebatar os mais entendidos - penso que escrever é quase sempre um acto de desnudação da realidade - e não importa se é a interior ou uma meta-tentativa de captação escatológica do mundo ou dos mundos emocionalmente tolhidos por cascatas em miscelânea e lagos recheados de bosques que não existem, ficcionados pela inaudível verdade do verbo relativo, do ômega e do aberto.

Tudo o resto é umbiguismo. E o umbiguismo é próprio das discotecas, dos centros comerciais, do individualismo esvaído e ocultador da dimensão pessoal, única e irrepetível da personalidade - falta de excrita - há muita angústia nesse falso isolamento e nessa errónea impessoalização do eu.

Detesto por isso separações estatutárias e sem sentido. A escrita só emerge através dos outros, mesmo no momento de aparente solidão onde mergulhamos na paisagem do apocalipse - o momento de inspiração - a "Voz do Emerso" - A Musa - e o seu significado autêntico esmaece no contemporâneo perante os esquemas comerciais que fazem frondescer o criador, através da sobrevalorização e da autonomização do autor ( entidade empresarial ) em relação à obra, originando assim o paradoxo do poeta pela sua redução a um conceito-morto, atirando-o para o covil do mercado e da montra do estabelecimento inidentitário- um termo abstracto que aspira à durabilidade eterna, fora da dinâmica do upgrade textual, e sujeito, por ironia das coisas, à fugacidade das modas que o tornam impessoal, produzindo assim o esbatimento da diferença, ocultando o corpo - o fenómeno que o distingue dos outros e que é a  ponte - a travessia que qualifica os textos-poemas ( diga-se assim)  dos textos-não-poemas.

O que é a leitura senão o contacto com os outros como na vida efectiva e prática? 

Carlos Pinto Vinagre

Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

água umbilical


As luzes esvaem diante do pasmo. Um labirinto de chamas corre a minha pele. Com um punhal decido escrever o que não reconheço até que a carne se esconda perante o arrepio. Há uma voz que soletra o impossível -  abranda um impulso das entranhas. Escamo a pele até que o fumo invada a minha traqueia e eu me sinta perante o indizível. Nã há morte, não há vida, só o teu nome perante mim - só uma mão nua a corroer a minha pele até que as artérias espumem a virgindade do teu apelido - o que desconheço pela miserável pele do mundo, os lábios ancestrais do bosque inimaginável, o orifício onde te ante-vejo despida de preconceitos e de mitos: a lagoa da minha água umbilical.


Carlos Pinto Vinagre

o exangue espeto do que se esvai



Os santos caem com o punhal sobre as costas. Esmaecida a pele, cai o sorriso pela encosta do outro. O adeus dói de impotência. A estrada ceifa a terra como um espeto. E no percurso do empossado, estou-te nas entranhas como um deus - o exangue espeto do que se esvai.


Carlos Pinto Vinagre